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O
ADMINISTRADOR
Logo após a posse
de Negrão de Lima, como governador do antigo Estado
da Guanabara, ocorreram as grandes enchentes na cidade,
que viriam a se repetir em 1967, já nesta época
com Paula Soares como Secretário de Obras e Presidente
da SURSAN, Geraldo Reis Carvalho como Superintendente e
Geraldo Segadas Viana como Diretor do DER.
Como arquiteto da SURSAN desde 1961, comecei a perceber
que tínhamos um chefe diferente dos anteriores; conversava
e discutia as soluções com os técnicos
de igual para igual, sem se prevalecer do seu cargo de secretário
para impor seu ponto de vista; não ficava preso em
gabinete percorrendo diariamente todas as obras.
Conhecia os detalhes de todas as obras o que nos obrigava
a estudar profundamente os projetos e a acompanhar integralmente
a sua execução.
P S, como o chamávamos, implantou uma política
gerencial totalmente nova no serviço público,
objetivando a valorização dos técnicos
da casa e cuja base principal era:
• utilização dos próprios carros
a serviço, mediante um ressarcimento das despesas
com a conseqüente dispensa de todos os carros oficiais,
dando o exemplo ao usar o seu “fusca” para as
visitas às obras;
• utilização de helicóptero,
não só por êle como pelos técnicos,
tanto da área de projetos como da área de
obras, principalmente para a realização das
obras de encostas como para a visualização
dos projetos;
• melhoria salarial equiparando os valores recebidos
aos da iniciativa privada, através de gratificações
de tempo integral e de serviços relevantes; e,
• atribuição de gerenciamento descentralizado
onde cada chefe escolhia seus subchefes e sua equipe de
trabalho, assumindo a responsabilidade por todos os seus
atos e de sua equipe.
DOIS FATOS
Como fiscal das obras do
Trevo dos Estudantes motivado pelo entusiasmo do P S e com
sua autorização estabeleci negociação
com os estudantes do Calabouço para a remoção
do restaurante para outro local no centro da cidade a fim
de prosseguir com as obras que tinham o exíguo prazo
de 120 dias.
Tal logo iniciadas as obras do novo restaurante e a demolição
do antigo, fui abordado por um tal de Cel. Niemeyer para
comunicar-me que havia uma ordem de paralisar as obras do
restaurante, pois assim se evitaria a permanência
de um foco estudantil , fato considerado de perigo para
a segurança nacional.
Ao afirmar que obedecia a ordens do Secretário êle
retrucou dizendo que tal ordem era do conhecimento do Paula
Soares.
Após uma noite em claro, preocupado com o possível
descumprimento da minha palavra dada aos estudantes, esperei
ansioso pela chegada do P S, na manhã do dia seguinte,
ao canteiro das obras.
Assim que lhe falei do sucedido êle imediatamente
me tranqüilizou dizendo-me que não tomasse conhecimento
de tal ordem e prosseguisse com as obras.
No almoço com os estudantes na inauguração
do novo restaurante do Calabouço, a biblioteca deles
recebeu o nome de Paula Soares.
Um ano mais tarde, encarregado de negociar com a Marinha
a passagem da Avenida Perimetral por dentro da área
do 1 º Distrito Naval, depois de muitas tentativas,
o Comandante daquela área militar, Almte. Jordão,
contrário à iniciativa, afirmou-me ironicamente
que a autorização só seria concedida
se fosse dada pelo Ministro da Marinha, coisa que achava
impossível, pois se tratava do Almte. Rademaker.
Desanimado e pesaroso pelo meu insucesso, fui ao gabinete
do P S, que sempre tinha as portas abertas para todos, e
ao informá-lo do sucedido, ele sorriu e disse: então
vamos ao Ministro.
E assim, nós e o Geraldo Reis Carvalho, juntamente
com o Ronald Young, fomos a uma audiência com o Ministro
e obtivemos sua aquiescência face à argumentação
do P S sobre os benefícios que tal obra traria à
cidade.
O ENGENHEIRO
A visão global da
cidade como um todo, com a total integração
de todos os bairros através das inúmeras obras
viárias de ligação, principalmente
os túneis, e a criação de uma nova
cidade oceânica - a Barra da Tijuca deram-lhe a dimensão
de um grande planejador urbano, promovendo:
• a Lei de Desenvolvimento Urbano e Regional ( Lei
1.574 ) e seus decretos regulamentadores de zoneamento,
parcelamento da terra e outros ( Dec. 3.800 ) em substituição
ao velho Dec. 6.000 de 1937;
• a elaboração do Plano Piloto da Baixada
de Jacarepaguá, através do Prof. Lúcio
Costa, por ele convidado, pois já sabia que ao realizar
o acesso à área com a construção
da auto-estrada Lagoa Barra, haveria um desenvolvimento
acelerado, pois as áreas residenciais existentes
já se encontravam intensamente ocupadas;
• a maior obra de despoluição da orla
marítima já realizada até hoje, com
a construção do interceptor oceânico
desde Botafogo até Ipanema e do lançamento
submarino dos esgotos em pleno oceano, ao mesmo tempo em
que alargava a Praia de Copacabana;
• inúmeras ligações viárias,
mais obras que talvez todas as administrações
anteriores do Estado da Guanabara e da Prefeitura do Rio
juntas não tenham feito, como: quarenta viadutos,
entre os quais os da Penha, Ramos, dois na Praia de Botafogo,
da Lagoa, da Ilha do Governador, do Meier, Mangueira e outros;
duplicação das pistas da Lagoa, Trevo dos
Estudantes, Auto-estrada Lagoa Barra, com três tuneis,
um elevado em dois níveis e a Ponte da Joatinga,
Avenida das Américas, Av. Aírton Sena, elevado
Paulo de Frontin, túnel Frei Caneca, duplicação
do Túnel Velho, variante da Grota Funda, Av. Perimetral,
término do Túnel Rebouças, término
do Trevo das Forças Armadas;
• incontáveis obras de contenção
de encostas, trazendo segurança aos cidadãos
cariocas e permitindo a especialização de
técnicos em tais obras;
• obras de retificação, canalização
e dragagem de rios, como o Maracanã, Joana, Jacaré
e outros;
• obras de urbanização como o término
do Parque do Flamengo, a Esplanada de Santo Antônio;
• projeto de ligação Botafogo Lagoa
e Leme Praia Vermelha, e início da obra do Extravasor
Oceânico.
Mais tarde , em 1988 , foi convidado como Secretário
para chefiar o GEROE, Grupo Executivo de Recuperação
e Obras Extraordinárias, por ele criado, acompanhado
por mim e pelo Geraldo Reis Carvalho, como Subsecretários,
que planejou todas as obras necessárias de prevenção
de catástrofes causadas pelas chuvas torrenciais
e cujo Programa de Reconstrução Rio obteve
os recursos financiados pelo Banco Mundial.
Ao saber que o Governador e os demais secretários
pretendiam que fossem contratadas firmas de consultoria
para acompanhamento das obras, demitiu-se, pois acreditava
na capacidade técnica dos servidores públicos.
O AMIGO
Além do prazer
de conviver com uma personalidade humana fascinante, amigo
especial, seus ensinamentos técnicos valeram mais
que meu curso na faculdade, e permitiram-me conhecer o maior
Engenheiro que tenho notícia.
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Armando Abreu é arquiteto da Prefeitura do Rio
e Conselheiro do CCSEAERJ
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